Sobre a falta de informações técnicas nos serviços de streaming
Hoje me considero bastante adaptado aos serviços de streaming como principal plataforma para ouvir música. Ainda que por puro fetichismo e apego sentimental eu ainda guarde alguns poucos CDs, e há pouco mais de 10 anos tenha ensaiado voltar a recorrer a LPs, realmente desapeguei das mídias físicas.
Mesmo assim sinto falta de um aspecto que costumava integrar os encartes dos discos, tanto digitais quanto analógicos: a ficha técnica das gravações.
Se à medida que fui formando o meu gosto musical, as letras contidas nos álbuns me eram indispensáveis, os créditos dos envolvidos na produção dos discos foram cada vez mais me interessando, sobretudo ao passo que eu começava a dar os meus primeiros passos na composição e na produção musical. Desde o Festival do Desconcerto, lançado em 2005 pelo SeuZé, faço questão de registrar e divulgar cada mínimo detalhe da produção dos discos em que estou envolvido: quem tocou cada instrumento em cada faixa, por exemplo.

Salvo um eventual saudosismo por discos de vinil ou vontades repentinas de ter toda a discografia de Caetano em CDs, estou bastante acostumado e satisfeito com a praticidade e custo-benefício do Spotify e Apple Music, serviços entre os quais costumo revezar. Outro aspecto que me prende ainda mais aos streamings de música é a integração com o Last.fm, essa maravilha da Internet que resiste bravamente, e que me permite praticar a obsessão em metrificar o que ouço ao longo do tempo. É como ter acesso à função "mais ouvidos" que o Spotify disponibiliza em dezembro, a qualquer momento e sem se restringir ao filtro do último ano.

Entretanto, realmente sinto falta de que os serviços de streaming de música sejam mais ativos em solicitar essas informações das empresas que distribuem as obras dos artistas em suas plataformas. E não falo apenas do detalhamento dos intérpretes e instrumentistas que atuaram em determinado single ou disco, mas também de dados sobre os responsáveis pela gravação, mixagem e masterização de cada fonograma. Gostaria muito de poder fazer com a música que ouço, o que já faço a um tempo com os livros e filmes que consumo.
O Letterboxd, por exemplo, espécie de rede social dedicada ao cinema e serviço de compartilhamento de críticas sobre filmes, organiza o seu catálogo de uma forma que todos os envolvidos na produção de uma película têm os seus nomes clicáveis no aplicativo, com a possibilidade de se ver tudo em que já trabalharam. Dessa forma, ao assistir um filme específico cujos trabalhos de direção ou direção de fotografia me chamaram a atenção, por exemplo, posso facilmente acessar a filmografia dessas pessoas e descobrir com relativa facilidade como continuar explorando as suas obras.
Na falta de funcionalidades semelhantes no Spotify e similares, ou mesmo de aplicativos dedicados para esse fim, alguns livros acabam cumprindo essa função para mim.
Recentemente li Lado C: a trajetória de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê e foi através do excelente trabalho de pesquisa de Luiz Felipe Carneiro e Tito Guedes, que tive informações organizadas para explorar a carreira de Pedro Sá - que acompanhou Caetano como guitarrista e produtor nos discos Cê, Zii & Zie e Abraçaço.
O site Discos do Brasil é uma excelente iniciativa nesse sentido, mas depois de me acostumar com as funcionalidades do Letterboxd, faz muito sentido para mim poder acessar essas informações de créditos dos fonogramas diretamente no serviço de streaming que uso.
Aguardo ansioso para poder explorar, de forma descomplicada e com obsessão, as discografias - não apenas de compositores e intérpretes - mas também de técnicos de mixagem, masterização e produtores musicais.
Filme visto - Romantic Guide to Lost Places, 2020 - ★★★½
Watched on Friday August 5, 2022.
Fonte: https://letterboxd.com/felipetavares/film/romantic-guide-to-lost-places/
Newton Navarro é universal

Já há algum tempo eu tentava me organizar para ver a exposição "O Sertão Virou Mar", de Azol, que estava na Pinacoteca do Estado desde o final de maio. No último sábado, finalmente, aconteceu.
Além da exposição que mencionei acima, queria aproveitar a ida ao centro da cidade para fazer um pequeno tour com Nina pelo corredor cultural, já que a pequena está estudando sobre a História de Natal, na escola.
Algumas das obras que Azol estava expondo eram estritamente pintura e outras eram meio que fusões entre pintura e fotografia. No vídeo de apresentação da exposição, o artista explicava que os motivos e temas para as obras vieram de uma viagem que fez pelo interior do Rio Grande do Norte e de outros estados do Nordeste.
Mas não foi exatamente "O Sertão Virou Mar" que me causou uma forte impressão nessa ida ao Palácio Potengi. Além dessa mostra temporária, a Pinacoteca dispunha de duas exposições permanentes, um das quais com pinturas e esculturas de artistas norte-rio-grandenses. Saí daquela sala profundamente impactado com a obra exposta de Newton Navarro, que eu já conhecia de idas à própria Pinacoteca há vários anos, mas que dessa vez adquiriram um significado novo e forte.

História da Arte, no Ensino Médio e na graduação em História foram, de maneira geral eurocêntricas demais e quando abordavam aspectos das artes plásticas brasileiras, não costumavam a ir muito além de breves apêndices sobre Tarsila do Amaral e Cândido Portinari, o que certamente contribuiu para a minha ignorância e/ou falta de curiosidade a respeito de outros artistas brasileiros e, também potiguares. Em relação à arte produzida no Rio Grande do Norte, além de me faltar repertório, eu tinha uma impressão ignorante e generalista de que o que se produzia por aqui não tinha qualidade suficiente para concorrer com o que era consagrado como nacional, fosse nas artes plásticas, música, teatro ou cinema.
Desde que comecei a me envolver com composição e produção musical, sobretudo após o início do SeuZé, em 2003, foi inevitável para mim pensar em como situar os projetos dos quais eu participava na discussão “artista nacional” x “artista local”. Esse era um debate bastante frequente na música naquele momento em que iniciativas como o Fora do Eixo e as dezenas de festivais independentes de música Brasil a fora, contribuíam para a descentralização dos olhares e ouvidos para o que estava sendo produzido no país.
Mas foi somente após assistir mas assídua e atentamente as montagens de grupos teatrais natalenses, especialmente dos Clowns de Shakespeare, que fui gradualmente me livrando desse complexo de viralata e construindo o entendimento de que não é necessário a validação de carimbo "nacional" para se atestar a qualidade de de expressões artísticas.
Essa última ida à Pinacoteca e, sobretudo, a força e personalidade da obra de Newton Navarro, fortaleceram ainda mais essa noção em mim.
Filme visto - When Harry Met Sally..., 1989 - ★★★★
Watched on Saturday July 16, 2022.
Fonte: https://letterboxd.com/felipetavares/film/when-harry-met-sally/
Filme visto - 10 Things I Hate About You, 1999 - ★★★½
Watched on Thursday June 16, 2022.
Fonte: https://letterboxd.com/felipetavares/film/10-things-i-hate-about-you/
Tuesday 26th of April 2022
Hello, @jayeless. I’m writing to say that your site has gained a fan. I came to your blog while researching on the web about digital garden and it ended up becoming an indie web reference for me! Thank you!
Source: Micro.blogFilme visto - The French Dispatch, 2021 - ★★½
Watched on Monday April 25, 2022.
Fonte: https://letterboxd.com/felipetavares/film/the-french-dispatch/
Wednesday 20th of April 2022
ABC x Paysandu
Third division of the Brazilian Football Championship. Yes! I’m a fan of a football team called ABC! ⚽️

Filme visto - Sonic the Hedgehog 2, 2022 - ★★

Assistido em 14 de abril de 2022.
Fonte: https://letterboxd.com/felipetavares/film/sonic-the-hedgehog-2/
Lacunas, gosto e produção musical em casa

Desde o início dos anos 2000 venho lidando com diferentes versões da ideia de gravar as minhas composições em casa. Inicialmente o impulso era de registrar com alguma qualidade os esboços de canções para posteriormente apresentar aos meus companheiros de banda. Na sequência foi ganhando fôlego a possibilidade de produzir demos para as bandas em que tocava à epoca, inicialmente o República 5 e, mais à frente, o SeuZé. A ideia era viabilizar registros para inscrever as bandas em festivais como o MADA e o saudoso Pop Rock Tropical.
Se a memória não estiver me traindo, creio que o evento motivador desse desejo de produzir em casa veio após ouvir uma demo do Brigitte Béreu que havia sido gravado por Marlos Ápyus, na sua casa. Eu era um admirador da banda e aquele registro doméstico causou um grande impacto em mim, pelo contéudo e pela forma.
Mas, somente em 2008, quando comprei uma placa de som e um microfone condensador (link de afiliado), é que comecei a pôr em a ideia em prática. Algumas das músicas que entraram n'A Comédia Humana, foram pré-produzidas no meu então quarto, na casa dos meus pais. Um pouco mais à frente, em 2013, sobretudo após conhecer o Recording Revolution, passei a considerar a possibilidade não apenas de produzir esboços e demos, mas de gravar discos na íntegra, em casa.
Em seu blog e canal de Youtube, Graham Cochrane defendia a ideia de que com a redução de custos de equipamentos e softwares de produção musical e o aumento na qualidade até mesmo das ferramentas mais acessíveis, não havia razões para que músicos e compositores não se dedicassem a gravar os seus próprios materiais.
O contato com dois discos gravados em casa por compositores que admiro profundamente - Supérflua, de Luiz Gadelha e Canções de Apartamento, de Cícero - acendeu outra fagulha: no segundo semestre de 2014 criei um novo projeto, o Forasteiro Só, e decidi gravar as canções que deram forma ao disco de estreia da banda, no home estúdio que montei em meu quarto, no apartamento em que morava na época.

Quando comecei a produção desse disco, eu tinha segurança suficiente para dar conta da etapa de gravação dos instrumentos e vocais, mas hesitava sobre a minha capacidade de assumir a mixagem/masterização do disco. Ainda que eu tivesse estudado um bocado sobre mixagem, não tinha botado a mão na massa o suficiente e era refém da possibilidade de que o resultado final dessa produção não atingisse a qualidade média dos discos lançados por outros compositores e bandas independentes, ou que soasse amador a ponto de não convencer curadorias de festivais a considerar o projeto para a suas programações.
Essa é uma questão com a qual estou lidando novamente nas últimas semanas. Tenho uma série de ideias de composições inacabadas e pretendo trabalhar nesse material e lançar alguns singles, ou mesmo um EP (daí a retomada desse blog). Estou decidido a gravar tudo no meu home estúdio, mas ainda hesito bastante em assumir a mixagem, justamente pelo receio de o resultado final acabar por não fazer jus às composições ou ao padrão de mixagem que o meu gosto aprendeu a identificar como o mínimo aceitável.
Somente recentemente passei a compreender melhor o papel implacável de censor que o nosso gosto exerce sobre o processo criativo. Através do Boa Noite Internet, de Cris Dias, cheguei a esse vídeo em que Ira Glass usa o termo lacuna (gap, no original) para sintetizar e lançar luz sobre essa questão. Abaixo uma tradução livre/adaptação da ideia que o criador do This American Life aborda no vídeo.
Ninguém fala isso para quem é iniciante. Gostaria que alguém me contasse. Todos nós que fazemos trabalho criativo, fazemos isso porque temos bom gosto, mas existe essa lacuna. Nos primeiros anos em que você faz coisas, não é tão bom assim. Tenta ser bom, tem potencial, mas não é. E o seu gosto, a única coisa que o colocou no jogo, ainda é matador. O seu gosto é o motivo pelo qual seu trabalho o decepciona. Muitas pessoas nunca passam dessa fase, elas desistem.
A maioria das pessoas que conheço que fazem trabalhos criativos e interessantes passaram anos nisso. Sabemos que nosso trabalho não tem essa coisa especial que queremos. E se você está apenas começando ou ainda está nessa fase, você tem que saber que é normal, e o mais importante que você pode fazer é trabalhar muito.
É só passando por um volume de trabalho que você vai preencher essa lacuna, e seu trabalho será tão bom quanto suas ambições. E demorei mais para descobrir como fazer isso do que qualquer pessoa que já conheci. Isso vai demorar um pouco. É normal demorar um pouco. Você apenas tem que lutar para abrir caminho.
A capa de cinismo que visto, ainda que inconscientemente, me levou inicialmente a minimizar a ideia defendida por Ira Glass, a enquadrando genericamente como autoajuda e inutilmente evitando identificação com a mesma. Entretanto, a cada dia tenho me convencido mais da abordagem do nosso gosto e referências como responsáveis por censurar o nosso trabalho criativo.
Ter isso em mente me parece importante nesse momento em que estou prestes a imergir na tarefa de materializar em canções lançadas ideias soltas e outros esboços mais encaminhados de composição.
Volte aqui e/ou assine a newsletter para descobrir com lidarei com esse mestre da censura disfarçado de gosto.
Lacunas, gosto e produção musical em casa

Desde o início dos anos 2000 venho lidando com diferentes versões da ideia de gravar as minhas composições em casa. Inicialmente o impulso era de registrar com alguma qualidade os esboços de canções para posteriormente apresentar aos meus companheiros de banda. Na sequência foi ganhando fôlego a possibilidade de produzir demos para as bandas em que tocava à epoca, inicialmente o República 5 e, mais à frente, o SeuZé. A ideia era viabilizar registros para inscrever as bandas em festivais como o MADA e o saudoso Pop Rock Tropical.
Se a memória não estiver me traindo, creio que o evento motivador desse desejo de produzir em casa veio após ouvir uma demo do Brigitte Béreu que havia sido gravado por Marlos Ápyus, na sua casa. Eu era um admirador da banda e aquele registro doméstico causou um grande impacto em mim, pelo contéudo e pela forma.
Mas, somente em 2008, quando comprei uma placa de som e um microfone condensador, é que comecei a pôr em a ideia em prática. Algumas das músicas que entraram n'A Comédia Humana, foram pré-produzidas no meu então quarto, na casa dos meus pais. Um pouco mais à frente, em 2013, sobretudo após conhecer o Recording Revolution, passei a considerar a possibilidade não apenas de produzir esboços e demos, mas de gravar discos na íntegra, em casa.
Em seu blog e canal de Youtube, Graham Cochrane defendia a ideia de que com a redução de custos de equipamentos e softwares de produção musical e o aumento na qualidade até mesmo das ferramentas mais acessíveis, não havia razões para que músicos e compositores não se dedicassem a gravar os seus próprios materiais.
O contato com dois discos gravados em casa por compositores que admiro profundamente - Supérflua, de Luiz Gadelha e Canções de Apartamento, de Cícero - acendeu outra fagulha: no segundo semestre de 2014 criei um novo projeto, o Forasteiro Só, e decidi gravar as canções que deram forma ao disco de estreia da banda, no home estúdio que montei em meu quarto, no apartamento em que morava na época.

Quando comecei a produção desse disco, eu tinha segurança suficiente para dar conta da etapa de gravação dos instrumentos e vocais, mas hesitava sobre a minha capacidade de assumir a mixagem/masterização do disco. Ainda que eu tivesse estudado um bocado sobre mixagem, não tinha botado a mão na massa o suficiente e era refém da possibilidade de que o resultado final dessa produção não atingisse a qualidade média dos discos lançados por outros compositores e bandas independentes, ou que soasse amador a ponto de não convencer curadorias de festivais a considerar o projeto para a suas programações.
Essa é uma questão com a qual estou lidando novamente nas últimas semanas. Tenho uma série de ideias de composições inacabadas e pretendo trabalhar nesse material e lançar alguns singles, ou mesmo um EP (daí a retomada desse blog). Estou decidido a gravar tudo no meu home estúdio, mas ainda hesito bastante em assumir a mixagem, justamente pelo receio de o resultado final acabar por não fazer jus às composições ou ao padrão de mixagem que o meu gosto aprendeu a identificar como o mínimo aceitável.
Somente recentemente passei a compreender melhor o papel implacável de censor que o nosso gosto exerce sobre o processo criativo. Através do Boa Noite Internet, de Cris Dias, cheguei a esse vídeo em que Ira Glass usa o termo lacuna (gap, no original) para sintetizar e lançar luz sobre essa questão. Abaixo uma tradução livre/adaptação da ideia que o criador do This American Life aborda no vídeo.
Ninguém fala isso para quem é iniciante. Gostaria que alguém me contasse. Todos nós que fazemos trabalho criativo, fazemos isso porque temos bom gosto, mas existe essa lacuna. Nos primeiros anos em que você faz coisas, não é tão bom assim. Tenta ser bom, tem potencial, mas não é. E o seu gosto, a única coisa que o colocou no jogo, ainda é matador. O seu gosto é o motivo pelo qual seu trabalho o decepciona. Muitas pessoas nunca passam dessa fase, elas desistem.
A maioria das pessoas que conheço que fazem trabalhos criativos e interessantes passaram anos nisso. Sabemos que nosso trabalho não tem essa coisa especial que queremos. E se você está apenas começando ou ainda está nessa fase, você tem que saber que é normal, e o mais importante que você pode fazer é trabalhar muito.
É só passando por um volume de trabalho que você vai preencher essa lacuna, e seu trabalho será tão bom quanto suas ambições. E demorei mais para descobrir como fazer isso do que qualquer pessoa que já conheci. Isso vai demorar um pouco. É normal demorar um pouco. Você apenas tem que lutar para abrir caminho.
A capa de cinismo que visto, ainda que inconscientemente, me levou inicialmente a minimizar a ideia defendida por Ira Glass, a enquadrando genericamente como autoajuda e inutilmente evitando identificação com a mesma. Entretanto, a cada dia tenho me convencido mais da abordagem do nosso gosto e referências como responsáveis por censurar o nosso trabalho criativo.
Ter isso em mente me parece importante nesse momento em que estou prestes a imergir na tarefa de materializar em canções lançadas ideias soltas e outros esboços mais encaminhados de composição.
Volte aqui e/ou assine a newsletter para descobrir com lidarei com esse mestre da censura disfarçado de gosto.