República 5
General Junkie e as minhas primeiras composições em perspectiva

Recentemente estive ouvindo o clássico disco homônimo do General Junkie. Venho convivendo com esse álbum desde o seu lançamento, em 2002, mas o distanciamento tem me feito perceber algumas nuances até então ignoradas.
Apesar de lançado no início da primeira década dos anos 2000, o disco reuniu músicas que foram compostas ao longo dos anos 1990 e que carregavam marcas fortes daquele tempo, sobretudo no que diz respeito à mistura de ritmos e linguagens, tão próprias daquela década. Daí a comparação reiterada pela crítica musical local, do General com as bandas pernambucanas expoentes do Manguebeat, creio eu que sobretudo como consequência da proximidade dos natalenses com o Eddie, que chegou inclusive a gravar "O Amargo", composição de Gustavo Lamartine.
Contudo, considerando as óbvias diferenças estéticas, acredito que é possível situar as composições do General Junkie num movimento (espontâneo e sem manifesto) nacional mais amplo da música independente brasileira daquele período, que se se permitia ir além de algumas convenções estéticas tão caras aos anos 1980, e que colocaria a banda potiguar na mesma linha evolutiva da música brasileira que também abrigaria nomes como os cariocas Acabou La Tequila e Mulheres que Dizem Sim.
O General Junkie foi muito competente em dialogar com aquela tendência que acontecia na música brasileira da época, partindo do local, assumindo o sotaque natalense, e no caso das músicas registradas no disco, captando o que acontecia fora do Brasil, especialmente a rítmica do Rage Against The Machine e abordagem guitarrística de Tom Morello, conscientemente assimiladas pela banda, como Anderson Foca revelou no livro DoSol: 10 anos de música, e, mais recentemente, no podcast que o DoSol lançou para celebrar os 20 anos de atividades enquanto combo cultural.
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O fato é que Gustavo, Paulo e Marcelo lidaram com esse caldeirão de referências e chegaram a um disco cheio de personalidade e, mais importante, sem soar pastiche. Algo que eu certamente não consegui fazer com o República 5, a primeira banda em que toquei, nem com as primeiras composições que escrevi para o SeuZé.
O República 5 começou no final de 1999 e durou até o início de 2003, quando o SeuZé foi formado. Pelo menos entre o meu círculo de convivência, ainda era bastante forte o rescaldo cultural vindo dos anos 1990.
Quando escrevi as minhas primeiras músicas, acho que em 1998 ou 1999, eu e alguns amigos do Salesiano ouvíamos muito Nirvana, Engenheiros do Hawaii e Paralamas. Assim esses meus primeiros esforços de composição remetiam a essas bandas e de certa forma eram canções mais ortodoxas no sentido de serem mais diretas e não sugerirem misturas entre gêneros e ritmos. Em algumas dessas primeiras produções eu escrevia letra e música, mas era bem comum à época eu musicar letras de alguns colegas da escola, principalmente de Carlos Henrique com quem estudei até o terminarmos o Ensino Médio, em 2000.
Uma dessas parcerias deu origem à canção Quem Somos Nós, que originalmente foi pensada como um rock mais direto, bem na fonte dos Engenheiros, mas que quando trabalhada em ensaios pelo República 5, acabou ganhando uma pegada mais reggae, em grande parte por sugestão de Carlinhos, baterista da banda. Quem Somos Nós Chegou a ser registrada numa demo que a minha primeira banda gravou no Estúdio Cantus, capitaneado por Hélder Lima, à época baterista do Cantus do Mangue, banda de reggae seminal natalense. Essa gravação provavelmente foi feita em 2001 ou 2002, em dois canais. Posteriormente seria mixada por Rufino, um conhecido, numa sala do CEFET-RN.
Carlinhos, que além de baterista do República 5, era meu vizinho, era bastante curioso e tinha uma pegada de ouvir música com ouvido de pesquisador. Lembro que mais ou menos nessa época, num dia em que estávamos voltando da saudosa Velvet Discos para Lagoa Nova, bairro em que morávamos, ele me falou algo como:
Para quem tem banda, um disco é como um livro.
De fato, boa parte da tendência que desenvolvi nesses primeiros anos de bandas, de pensar em arranjos sempre considerando a possibilidade de misturar ritmos e linguagens, veio através de Carlinhos. Foi ele quem me apresentou os discos de Chico Science, o Guentando a Ôia - do Mundo Livre - e mais a frente, em 2002, o Alugam-se Asas Para o Carnaval, do Jorge Cabeleira. Esse último exerceu um forte impacto em mim e influenciou decisivamente a estética que as primeiras composições do SeuZé seguiram, baseada numa mistura de rock, blues e baião.
Acontece que a leitura que fiz de todas essas e bandas e discos foi, em alguma medida, ingênua e literal, como um Sérgio Leone sem intencionalidade e ironia. Ainda gosto de algumas ideias do Festival do Desconcerto, do SeuZé, sobretudo considerando que só pudemos contar com um produtor experiente na mixagem do disco. Mas comparando hoje com o disco do General Junkie, o de estreia do SeuZé me soa ligeiramente pastiche e apressado no trato com as referências. E ao refletir sobre isso não o faço em tom de lamento, arrependimento ou juízo de valor, mas como uma observação que só o distanciamento temporal pode produzir.
Renascimento dos blogs e um pouco de Arqueologia
2022 foi sem dúvidas um dos anos em que mais consumi conteúdo da web aberta, sobretudo blogs hospedados em servidores pessoais. Desde a primeira onda de weblogs, lá no início dos anos 2000, sempre nutri uma curiosidade e interesse sobre a possibilidade de publicar e ler impressões pessoais sobre o cotidiano e as pequenas obsessões individuais tão caras à blogosfera.
Após ter abandonado o meu perfil no Facebook (mantenho apenas uma página destinada a divulgar os meus trabalhos na música) e cada vez mais ter menos saco para ser ativo em redes como o Twitter e Instagram, recorrer à web aberta me pareceu um caminho legal de percorrer. Para acompanhar as dezenas de blogs pessoais pelos quais me interesso, uso o NetNewsWire, um agregador de feeds RSS que faz o mesmo papel do finado e saudoso Google Reader. Abaixo a lista de sites pessoais que estão no meu radar:




De fato essa sensação geral de saturação das redes sociais como conhecemos e, sobretudo, o caos que se instalou em torno do Twitter pós aquisição de Elon Musk, deu uma nova sobrevida aos blogs, a ponto de ser frequente o espaço em alguns veículos grandes como o The Verge, para textos que falam sobre o renascimento dos blogs.
Acompanhar de perto esse movimento teve efeito sobre esse espaço em que escrevo. 2022 foi ano em que mais escrevi por aqui desde que botei o Música em Versão Beta no ar. Também contribuiu para isso o fato de eu ter conhecido as ideias por trás da Indie Web e ter me convencido da importância de ter o meu espaço pessoal na Internet e ser dono do conteúdo que produzo.
Além de passar a postar com mais frequência, também me inspirei a organizar a parte estrutural deste blog. Tenho feito pequenos ajustes de design, além de despender um esforço arqueológico de trazer para cá postagens de outros blogs antigos que mantive no passado e mesmo de redes sociais como o Facebook. Nessa tarefa de lidar com o passado, corre-se o risco de reler a quantidade de besteira que um jovem adulto de 20 poucos anos era capaz de produzir com um teclado à mão e uma conexão discada à disposição. Muito do que escrevi nesses antigos espaços é bastante diferente da minha visão de mundo atual, e certamente seria motivo para o meu cancelamento em tempos atuais, mas estou fazendo questão de trazer para o histórico deste blog, justamente para que eu possa acompanhar esse caminho. Por outro lado, têm sido muito bacana reencontrar outros registros do início da minha trajetória como músico e compositor. Aqui, por exemplo, escrevo sobre a minha saída do República 5 e sobre a fundação do projeto que viria a ser o SeuZé. É um texto que foi escrito em 15 de setembro de 2003 e que, a despeito de estar cheio de erros gramaticais e ter sido produzido num estilo de escrita que hoje estranho, tem a sua importância de ser registrado.
Através do incrível WayBack Machine consegui resgatar o histórico dos Papo Passado e Cabaret de Luxo, blogs que mantive entre 2003 e 2005. Esses sites foram hospedados em servidores gratuitos de blogs que existiam à época, como o Blig, Weblogger e Blogspot. Só não consegui encontrar registros de um tempo em que o Papo Passado funcionava no Blogger.



Ainda estou trabalhando nas importações dessas postagens antigas, mas todas elas estarão reunidas aqui.
História musical de um jovem orelhudo e olherudo - Parte 8
Posso dizer, por experiência própria, que para alguém que almeja algo tocando algum instrumento, nada como começar tocando em alguma banda. O ritmo de ensaios e até mesmo o clima de novidade são fundamentais para um contato mais constante com o instrumento. Claro que é preciso ter bom senso para saber que não vai ser tão cedo que a primeira apresentação acontecerá.
Fui um felizardo por ter tido essa oportunidade. Quando comecei a tomar gosto pelo contrabaixo e vislumbrei uma possibilidade de ser baixista profissional em um futuro distante, tive a sorte de estar começando o República 5.
Em seus primeiros passos, a banda não sabia exatamente o que iria se propor a fazer. Nada mais natural. Éramos todos moleques, cujo conhecimento musical não ia muito além de músicas cifradas da Legião Urbana e a idéia de montar um grupo era muito recente.
Começamos tentando tocar covers da Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso e afins. Confesso que nesse momento eu me mostrei muito tímido e pouco participativo. Não fazia nada além de tocar as músicas sugeridas pelos outros integrantes.
Depois de um bom tempo de ensaios, eis que surge o convite para a primeira apresentação. A amiga de um tio de Carlinhos (baterista do República 5) nos viu ensaiando uma vez e resolveu nos iniciar na vida. No sentido musical, evidentemente.
O problema é que na ocasião não tínhamos chegado nem a uma hora de repertório. Para uma banda iniciante, ávida pelo primeiro show, isso não seria um problema. Por esses tempos Fell era fã incondicional de O Rappa e sabia cantar todas as músicas do disco Rappa Mundi.
Não poderia ser mais legal. Além do nosso primeiro show, também seria a primeira noite de improvisos da banda.
Assim, em algum dia da última semana de dezembro de 1999, fizemos a nossa primeira incursão ao-vivo na música. Somados erros e improvisos nada interessantes, chegamos à conclusão que deveríamos ensaiar mais um pouco antes de tocar de novo.
Mas já era tarde, duas semanas depois estaríamos fazendo apresentações na Praia de Zumbi e começando a aprender com os próprios erros