MÚSICA
General Junkie e as minhas primeiras composições em perspectiva

Recentemente estive ouvindo o clássico disco homônimo do General Junkie. Venho convivendo com esse álbum desde o seu lançamento, em 2002, mas o distanciamento tem me feito perceber algumas nuances até então ignoradas.
Apesar de lançado no início da primeira década dos anos 2000, o disco reuniu músicas que foram compostas ao longo dos anos 1990 e que carregavam marcas fortes daquele tempo, sobretudo no que diz respeito à mistura de ritmos e linguagens, tão próprias daquela década. Daí a comparação reiterada pela crítica musical local, do General com as bandas pernambucanas expoentes do Manguebeat, creio eu que sobretudo como consequência da proximidade dos natalenses com o Eddie, que chegou inclusive a gravar "O Amargo", composição de Gustavo Lamartine.
Contudo, considerando as óbvias diferenças estéticas, acredito que é possível situar as composições do General Junkie num movimento (espontâneo e sem manifesto) nacional mais amplo da música independente brasileira daquele período, que se se permitia ir além de algumas convenções estéticas tão caras aos anos 1980, e que colocaria a banda potiguar na mesma linha evolutiva da música brasileira que também abrigaria nomes como os cariocas Acabou La Tequila e Mulheres que Dizem Sim.
O General Junkie foi muito competente em dialogar com aquela tendência que acontecia na música brasileira da época, partindo do local, assumindo o sotaque natalense, e no caso das músicas registradas no disco, captando o que acontecia fora do Brasil, especialmente a rítmica do Rage Against The Machine e abordagem guitarrística de Tom Morello, conscientemente assimiladas pela banda, como Anderson Foca revelou no livro DoSol: 10 anos de música, e, mais recentemente, no podcast que o DoSol lançou para celebrar os 20 anos de atividades enquanto combo cultural.
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O fato é que Gustavo, Paulo e Marcelo lidaram com esse caldeirão de referências e chegaram a um disco cheio de personalidade e, mais importante, sem soar pastiche. Algo que eu certamente não consegui fazer com o República 5, a primeira banda em que toquei, nem com as primeiras composições que escrevi para o SeuZé.
O República 5 começou no final de 1999 e durou até o início de 2003, quando o SeuZé foi formado. Pelo menos entre o meu círculo de convivência, ainda era bastante forte o rescaldo cultural vindo dos anos 1990.
Quando escrevi as minhas primeiras músicas, acho que em 1998 ou 1999, eu e alguns amigos do Salesiano ouvíamos muito Nirvana, Engenheiros do Hawaii e Paralamas. Assim esses meus primeiros esforços de composição remetiam a essas bandas e de certa forma eram canções mais ortodoxas no sentido de serem mais diretas e não sugerirem misturas entre gêneros e ritmos. Em algumas dessas primeiras produções eu escrevia letra e música, mas era bem comum à época eu musicar letras de alguns colegas da escola, principalmente de Carlos Henrique com quem estudei até o terminarmos o Ensino Médio, em 2000.
Uma dessas parcerias deu origem à canção Quem Somos Nós, que originalmente foi pensada como um rock mais direto, bem na fonte dos Engenheiros, mas que quando trabalhada em ensaios pelo República 5, acabou ganhando uma pegada mais reggae, em grande parte por sugestão de Carlinhos, baterista da banda. Quem Somos Nós Chegou a ser registrada numa demo que a minha primeira banda gravou no Estúdio Cantus, capitaneado por Hélder Lima, à época baterista do Cantus do Mangue, banda de reggae seminal natalense. Essa gravação provavelmente foi feita em 2001 ou 2002, em dois canais. Posteriormente seria mixada por Rufino, um conhecido, numa sala do CEFET-RN.
Carlinhos, que além de baterista do República 5, era meu vizinho, era bastante curioso e tinha uma pegada de ouvir música com ouvido de pesquisador. Lembro que mais ou menos nessa época, num dia em que estávamos voltando da saudosa Velvet Discos para Lagoa Nova, bairro em que morávamos, ele me falou algo como:
Para quem tem banda, um disco é como um livro.
De fato, boa parte da tendência que desenvolvi nesses primeiros anos de bandas, de pensar em arranjos sempre considerando a possibilidade de misturar ritmos e linguagens, veio através de Carlinhos. Foi ele quem me apresentou os discos de Chico Science, o Guentando a Ôia - do Mundo Livre - e mais a frente, em 2002, o Alugam-se Asas Para o Carnaval, do Jorge Cabeleira. Esse último exerceu um forte impacto em mim e influenciou decisivamente a estética que as primeiras composições do SeuZé seguiram, baseada numa mistura de rock, blues e baião.
Acontece que a leitura que fiz de todas essas e bandas e discos foi, em alguma medida, ingênua e literal, como um Sérgio Leone sem intencionalidade e ironia. Ainda gosto de algumas ideias do Festival do Desconcerto, do SeuZé, sobretudo considerando que só pudemos contar com um produtor experiente na mixagem do disco. Mas comparando hoje com o disco do General Junkie, o de estreia do SeuZé me soa ligeiramente pastiche e apressado no trato com as referências. E ao refletir sobre isso não o faço em tom de lamento, arrependimento ou juízo de valor, mas como uma observação que só o distanciamento temporal pode produzir.
Renascimento dos blogs e um pouco de Arqueologia
2022 foi sem dúvidas um dos anos em que mais consumi conteúdo da web aberta, sobretudo blogs hospedados em servidores pessoais. Desde a primeira onda de weblogs, lá no início dos anos 2000, sempre nutri uma curiosidade e interesse sobre a possibilidade de publicar e ler impressões pessoais sobre o cotidiano e as pequenas obsessões individuais tão caras à blogosfera.
Após ter abandonado o meu perfil no Facebook (mantenho apenas uma página destinada a divulgar os meus trabalhos na música) e cada vez mais ter menos saco para ser ativo em redes como o Twitter e Instagram, recorrer à web aberta me pareceu um caminho legal de percorrer. Para acompanhar as dezenas de blogs pessoais pelos quais me interesso, uso o NetNewsWire, um agregador de feeds RSS que faz o mesmo papel do finado e saudoso Google Reader. Abaixo a lista de sites pessoais que estão no meu radar:




De fato essa sensação geral de saturação das redes sociais como conhecemos e, sobretudo, o caos que se instalou em torno do Twitter pós aquisição de Elon Musk, deu uma nova sobrevida aos blogs, a ponto de ser frequente o espaço em alguns veículos grandes como o The Verge, para textos que falam sobre o renascimento dos blogs.
Acompanhar de perto esse movimento teve efeito sobre esse espaço em que escrevo. 2022 foi ano em que mais escrevi por aqui desde que botei o Música em Versão Beta no ar. Também contribuiu para isso o fato de eu ter conhecido as ideias por trás da Indie Web e ter me convencido da importância de ter o meu espaço pessoal na Internet e ser dono do conteúdo que produzo.
Além de passar a postar com mais frequência, também me inspirei a organizar a parte estrutural deste blog. Tenho feito pequenos ajustes de design, além de despender um esforço arqueológico de trazer para cá postagens de outros blogs antigos que mantive no passado e mesmo de redes sociais como o Facebook. Nessa tarefa de lidar com o passado, corre-se o risco de reler a quantidade de besteira que um jovem adulto de 20 poucos anos era capaz de produzir com um teclado à mão e uma conexão discada à disposição. Muito do que escrevi nesses antigos espaços é bastante diferente da minha visão de mundo atual, e certamente seria motivo para o meu cancelamento em tempos atuais, mas estou fazendo questão de trazer para o histórico deste blog, justamente para que eu possa acompanhar esse caminho. Por outro lado, têm sido muito bacana reencontrar outros registros do início da minha trajetória como músico e compositor. Aqui, por exemplo, escrevo sobre a minha saída do República 5 e sobre a fundação do projeto que viria a ser o SeuZé. É um texto que foi escrito em 15 de setembro de 2003 e que, a despeito de estar cheio de erros gramaticais e ter sido produzido num estilo de escrita que hoje estranho, tem a sua importância de ser registrado.
Através do incrível WayBack Machine consegui resgatar o histórico dos Papo Passado e Cabaret de Luxo, blogs que mantive entre 2003 e 2005. Esses sites foram hospedados em servidores gratuitos de blogs que existiam à época, como o Blig, Weblogger e Blogspot. Só não consegui encontrar registros de um tempo em que o Papo Passado funcionava no Blogger.



Ainda estou trabalhando nas importações dessas postagens antigas, mas todas elas estarão reunidas aqui.
Teago Oliveira na nova sala do DoSol

Ontem fui à nova sede do DoSol para ver o show solo de Teago Oliveira. Venho acompanhando o trabalho dele enquanto compositor principalmente através da Maglore, banda que vem se tornando uma das mais sólidas e interessantes do país nos últimos tempos. A quantidade de grandes canções que eles conseguiram reunir nos últimos quatro discos - os que mais ouvi - é um caso raro no cancioneiro nacional, e fosse em outro momento do mercado fonográfico, certamente colocaria os baianos na mesma prateleira de gente como Los Hermanos e Legião Urbana.
O primeiro contato que tive com Teago e com a Maglore foi em 2011 ou 2012, quando eles vieram pela primeira vez a Natal, num show organizado pela antiga LoL Produções, de Thalys Belchior, em que o SeuZé tocou como banda de abertura. De lá pra cá eles vieram lançando discos novos com uma boa frequência, se mudaram para São Paulo e se tornaram uma das bandas mais relevantes do Brasil na atualidade.
O show de Teago reune músicas do disco solo Boa Sorte (2019), músicas lançadas pela Maglore e algumas versões para outros artistas feitas pelo compositor baiano, como a linda releitura para Exotérico, de Gil.
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Não foi intencional, mas em alguns momentos me vi assistindo ao show do ponto de vista de compositor. É muito interessante observar como em algumas composições mais recentes, Teago explora a tessitura gigante da sua voz e usa isso como recurso para criar dinâmicas e climas para muitas das suas músicas. É o caso de "Eles", que foi lançada em 2022 no disco V, da Maglore, que começa com um registro de voz mais grave e quando chega ao momento de dinâmica mais alta com o resto da banda, a voz passa para a região mais aguda, que Teago domina muito bem e imprime um timbre seguro, potente e delicado. Isso causa um impacto muito grande na versão gravada em estúdio, mas em um show solo tem um efeito ainda mais poderoso ao criar climas e nuances para uma apresentação que por natureza não tem tantas possibilidades de texturas e dinâmicas quanto um show com banda inteira. De certa forma me remete a outros cantautores que formatam as suas composições para ser executadas por apenas uma pessoa e também brincam bastante com essa relação entre a dinâmica e a tessitura da voz. Glenn Hansard, que ganhou o Óscar de Melhor Canção, em 2008, com Falling Slowly, composta em parceria com Markéta Irglová, fez muito isso em composições lançadas nos seus discos solo.
Voltando ao show de Teago, outra coisa que me chamou atenção pela forma como ele explora é o uso do reverb, sobretudo na guitarra, para preencher espaços e criar dinâmicas. Algo que só tem efeito prático com uma boa sonorização, o que a nova sede cultural do DoSol conseguiu oferecer já nesses primeiros meses de funcionamento. O som estava impecável e a nova sala para shows é uma conquista gigante para a cidade porque proporciona um formato de show que até então só era possível de forma mais improvisada.
Em 2015 eu fui ao show do Apanhador Só, pela turnê Na Sala de Estar, que a banda gaúcha viabilizou através de financiamento coletivo. Com o projeto no Catarse eles conseguiram comprar um carro e viajaram pelo país inteiro se apresentando em espaços como salas de estar das casas de fãs, nas cidades por onde passavam. Ao final da programação de apresentações a banda venderia o carro e investiria a grana na gravação de um próximo álbum. A princípio parecia uma ideia insustentável do ponto de vista do negócio, pois essas apresentações mais "domésticas" em tese não renderiam boas bilheterias, mas para bandas como o Apanhador Só, que já tinham uma base de fãs considerável, se mostrava extremamente viável. Pela possibilidade de um contato mais próximo e íntimo como o artista/banda, o público geralmente está disposto a pagar um pouco mais pelo ingresso, o que viabiliza a apresentação para os artistas e para os produtores locais. Essa é uma ideia que à época eu sabia que já era colocada em prática no circuito independente de música dos Estados Unidos, mas que foi bem bacana ter tido a experiência de presenciar na minha cidade.
A nova sede do DoSol coloca essa experiência de apresentações para pequenas audiências - a casa suporta 60 pessoas - em outro patamar, ao inaugurar uma sala confortável, bem localizada e, mais importante, com uma sonorização impecável.
Eu acompanho atentamente as ações do DoSol, seja como artista ou como público, desde as primeiras iniciativas do então selo, e comemoro as conquistas e boas ideias de Ana e Foca. A quantidade de ações e programações relevantes que a cidade deve a eles nesses 20 anos de atuação é enorme. Sempre fico admirado como além da quantidade de iniciativas, os dois parecem ter controle de cada etapa da gestão dos projetos que põem na rua. Mais recentemente venho observando uma preocupação mais explícita com o léxico em torno das ações que desenvolvem. Na divulgação do último Festival DoSol vi repetidas vezes a menção à preocupação do festival com a memória, o que se refletiu na escalação de nomes como João Donato e Kátia de França para a programação de 2022. De um tempo para cá, seja em entrevistas, em postagens para redes sociais ou nos vídeos gravados para o impressionate DoSol TV, vi muitas vezes Foca utilizar a expressão "fã de música" para se referir ao público das iniciativas do DoSol. Consigo perceber intencionalidade no uso de uma expressão como essa, que na minha ótica passa pela tentativa de se reforçar o senso de comunidade entre o público interessado nas iniciativas do combo cultural.
A impressão que fica dessa minha primeira ida enquanto público à nova sede cultural é de que o espaço foi formatado para servir a fãs de música. O horário em que os shows por lá têm iniciado (por volta das 20h), a duração (cerca de 1h) faz das apresentações que têm acontecido lá muito mais oportunidades para fruição de música do que propriamente uma balada ou programação noturna aleatória.
Do dia 27 de janeiro, sexta-feira, o SeuZé também vai se apresentar por lá. Os ingressos estão à venda aqui. Bora?
Mais ouvidas em 2022

Uma dos virais de Instagram de que mais gosto é quando todos passam a postar a suas estatísticas de músicas ouvidas geradas pelo Spotify, Apple Music e afins. Acontece que no afã de ter engajamento antes das festas de fim de ano, esses serviços costumam limitar os dados anuais até fins de novembro. Para pessoas que como eu vêem diversão e têm uma pequena obsessão com a precisão desses números, esse limite incomoda.
Desde pelo menos 2020 voltei a usar mais assiduamente o saudoso Last.fm e tenho me divertido bastante explorando a quantidade de dados que o serviço gera. E o mais legal: não apenas a cada dezembro, mas ao longo de cada ano é possível ter acesso a estatísticas parciais do que se ouviu. Abaixo um resumo das minhas estatísticas para 2022.












Resumindo as estatísticas: como em 2021 e 2020, Jorge Drexler esteve sempre presente nas minhas audições. Tinta Y Tiempo foi realmente o meu álbum favorito de 2022. As gratas surpresas foram Bala Desejo - cujos integrantes eu já acompanhava em seus outros projetos e Moons. Algumas entradas que aparecem nos meus rankings são meio que ossos do ofício. Foi o caso de Shiny Happy People, do REM, que eu ouvi bastante pois a música entrou no repertório da Banda Café. Fiquei obcecado por "Água", de Djavan, após ouví-la numa versão de Mônica Salmaso e Vanessa Moreno. Linda canção, que este que escreve ainda não foi capaz de executar bem ao violão.
Tem sido bacana brincar com essas nerdices sobre os meus hábitos de escuta musical. Mais para a frente pretendo escrever um post em que explicarei quais aplicativos, configurações e equipamentos eu utilizo para ouvir música.
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Desde 2016 venho listando aqui no blog as minhas estatísticas de músicas e discos ouvidos. Os anos anteriores ficaram assim: 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016.
Todos as estatísticas anuais estão reunidas aqui.
Sobre a falta de informações técnicas nos serviços de streaming
Hoje me considero bastante adaptado aos serviços de streaming como principal plataforma para ouvir música. Ainda que por puro fetichismo e apego sentimental eu ainda guarde alguns poucos CDs, e há pouco mais de 10 anos tenha ensaiado voltar a recorrer a LPs, realmente desapeguei das mídias físicas.
Mesmo assim sinto falta de um aspecto que costumava integrar os encartes dos discos, tanto digitais quanto analógicos: a ficha técnica das gravações.
Se à medida que fui formando o meu gosto musical, as letras contidas nos álbuns me eram indispensáveis, os créditos dos envolvidos na produção dos discos foram cada vez mais me interessando, sobretudo ao passo que eu começava a dar os meus primeiros passos na composição e na produção musical. Desde o Festival do Desconcerto, lançado em 2005 pelo SeuZé, faço questão de registrar e divulgar cada mínimo detalhe da produção dos discos em que estou envolvido: quem tocou cada instrumento em cada faixa, por exemplo.

Salvo um eventual saudosismo por discos de vinil ou vontades repentinas de ter toda a discografia de Caetano em CDs, estou bastante acostumado e satisfeito com a praticidade e custo-benefício do Spotify e Apple Music, serviços entre os quais costumo revezar. Outro aspecto que me prende ainda mais aos streamings de música é a integração com o Last.fm, essa maravilha da Internet que resiste bravamente, e que me permite praticar a obsessão em metrificar o que ouço ao longo do tempo. É como ter acesso à função "mais ouvidos" que o Spotify disponibiliza em dezembro, a qualquer momento e sem se restringir ao filtro do último ano.

Entretanto, realmente sinto falta de que os serviços de streaming de música sejam mais ativos em solicitar essas informações das empresas que distribuem as obras dos artistas em suas plataformas. E não falo apenas do detalhamento dos intérpretes e instrumentistas que atuaram em determinado single ou disco, mas também de dados sobre os responsáveis pela gravação, mixagem e masterização de cada fonograma. Gostaria muito de poder fazer com a música que ouço, o que já faço a um tempo com os livros e filmes que consumo.
O Letterboxd, por exemplo, espécie de rede social dedicada ao cinema e serviço de compartilhamento de críticas sobre filmes, organiza o seu catálogo de uma forma que todos os envolvidos na produção de uma película têm os seus nomes clicáveis no aplicativo, com a possibilidade de se ver tudo em que já trabalharam. Dessa forma, ao assistir um filme específico cujos trabalhos de direção ou direção de fotografia me chamaram a atenção, por exemplo, posso facilmente acessar a filmografia dessas pessoas e descobrir com relativa facilidade como continuar explorando as suas obras.
Na falta de funcionalidades semelhantes no Spotify e similares, ou mesmo de aplicativos dedicados para esse fim, alguns livros acabam cumprindo essa função para mim.
Recentemente li Lado C: a trajetória de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê e foi através do excelente trabalho de pesquisa de Luiz Felipe Carneiro e Tito Guedes, que tive informações organizadas para explorar a carreira de Pedro Sá - que acompanhou Caetano como guitarrista e produtor nos discos Cê, Zii & Zie e Abraçaço.
O site Discos do Brasil é uma excelente iniciativa nesse sentido, mas depois de me acostumar com as funcionalidades do Letterboxd, faz muito sentido para mim poder acessar essas informações de créditos dos fonogramas diretamente no serviço de streaming que uso.
Aguardo ansioso para poder explorar, de forma descomplicada e com obsessão, as discografias - não apenas de compositores e intérpretes - mas também de técnicos de mixagem, masterização e produtores musicais.
Newton Navarro é universal

Já há algum tempo eu tentava me organizar para ver a exposição "O Sertão Virou Mar", de Azol, que estava na Pinacoteca do Estado desde o final de maio. No último sábado, finalmente, aconteceu.
Além da exposição que mencionei acima, queria aproveitar a ida ao centro da cidade para fazer um pequeno tour com Nina pelo corredor cultural, já que a pequena está estudando sobre a História de Natal, na escola.
Algumas das obras que Azol estava expondo eram estritamente pintura e outras eram meio que fusões entre pintura e fotografia. No vídeo de apresentação da exposição, o artista explicava que os motivos e temas para as obras vieram de uma viagem que fez pelo interior do Rio Grande do Norte e de outros estados do Nordeste.
Mas não foi exatamente "O Sertão Virou Mar" que me causou uma forte impressão nessa ida ao Palácio Potengi. Além dessa mostra temporária, a Pinacoteca dispunha de duas exposições permanentes, um das quais com pinturas e esculturas de artistas norte-rio-grandenses. Saí daquela sala profundamente impactado com a obra exposta de Newton Navarro, que eu já conhecia de idas à própria Pinacoteca há vários anos, mas que dessa vez adquiriram um significado novo e forte.

História da Arte, no Ensino Médio e na graduação em História foram, de maneira geral eurocêntricas demais e quando abordavam aspectos das artes plásticas brasileiras, não costumavam a ir muito além de breves apêndices sobre Tarsila do Amaral e Cândido Portinari, o que certamente contribuiu para a minha ignorância e/ou falta de curiosidade a respeito de outros artistas brasileiros e, também potiguares. Em relação à arte produzida no Rio Grande do Norte, além de me faltar repertório, eu tinha uma impressão ignorante e generalista de que o que se produzia por aqui não tinha qualidade suficiente para concorrer com o que era consagrado como nacional, fosse nas artes plásticas, música, teatro ou cinema.
Desde que comecei a me envolver com composição e produção musical, sobretudo após o início do SeuZé, em 2003, foi inevitável para mim pensar em como situar os projetos dos quais eu participava na discussão “artista nacional” x “artista local”. Esse era um debate bastante frequente na música naquele momento em que iniciativas como o Fora do Eixo e as dezenas de festivais independentes de música Brasil a fora, contribuíam para a descentralização dos olhares e ouvidos para o que estava sendo produzido no país.
Mas foi somente após assistir mas assídua e atentamente as montagens de grupos teatrais natalenses, especialmente dos Clowns de Shakespeare, que fui gradualmente me livrando desse complexo de viralata e construindo o entendimento de que não é necessário a validação de carimbo "nacional" para se atestar a qualidade de de expressões artísticas.
Essa última ida à Pinacoteca e, sobretudo, a força e personalidade da obra de Newton Navarro, fortaleceram ainda mais essa noção em mim.
Mais ouvidas em 2021

Nina mais uma vez moldando o meu ranking, vide o tema de Gravity Falls. Por outro lado, esse Now United aí tem dedo meu: Nobody Like Us esteve no meu repeat deliberadamente. =P
Já Billie Eilish entra na minha conta mesmo. Que disco da porra é o When We All Fall Asleep, Where Do We Go?!
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Desde 2016 venho listando aqui no blog as minhas estatísticas de músicas e discos ouvidos. Os anos anteriores ficaram assim: 2020, 2019, 2018, 2017, 2016.
Todos as estatísticas anuais estão reunidas aqui.
Mais ouvidas em 2020

Em 2020 Jorge Drexler monopolizou as minhas audições. Cheguei ao disco Salvavidas de Hielo após ver o show do uruguaio no Tiny Desk Concert da NPR, e não ouvi outra coisa por muito tempo. Também gostei bastante da trilha de The Eddy, que teve alguns episódios dirigidos por Damien Chazelle e redescobri o V, do Legião Urbana.
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Todos as estatísticas anuais estão reunidas aqui.
Mais ouvidas em 2019

O show de Los Hermanos em João Pessoa, em abril desse ano, me fez revisitar a discografia da banda. O Bloco do Eu Sozinho continua como vinho, e com exceção de Tão Sozinho que parecem sobra do disco de estreia, é um trabalho atemporal.
Também gostei demais do disco solo de Teago Oliveira, do Maglore. Destaque para a pedrada Corações em Fúria.
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Todos as estatísticas anuais estão reunidas aqui.
Livros lidos em 2017

Com um Xbox One e um Nintendo Switch em casa, em 2017 a leitura comeu poeira para os videogames. Mas, para manter a tradição por aqui, segue a relação de livros lidos ao longo do ano.

Rita Lee: uma autobiografia
Rita Lee
Escrevi um pouco sobre a autobiografia de Rita Lee, aqui.
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Desde 2016 venho listando as minhas leituras anuais. Veja que livros foram lidos por aqui em anos anteriores: 2016.
Todos esses compilados anuais estão reunidos aqui.
Mais ouvidas em 2017

A tentação de culpar Nina pelos resultados inesperados, é grande. Mas pode botar "De Nada" e "Se enamora" na minha conta.
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Desde 2016 venho listando aqui no blog as minhas estatísticas de músicas e discos ouvidos. No ano passado ficou assim: 2016.
Todos as estatísticas anuais estarão reunidas aqui.
Livros lidos em 2016

A partir desse ano quero começar uma tradição por aqui: fazer uma relação de livros lidos ao longo do ano, com alguns comentários sobre os títulos que mais me chamaram a atenção. Em 2016, a coisa foi mais ou menos assim:

Diários de bicicleta
David Byrne
Escrevi especificamente sobre esse livro, aqui. Diários de Bicicleta foi uma das leituras mais prazerosas que fiz em muito tempo. David Byrne tem uma escrita cativante e a premissa de abordar tópicos como mobilidade e planejamento urbanos, cicloativismo, relacionados à atividade de músico do autor, me interessaram demais.

100 discos do rock poriguar para escutar sem precisar morrer
Alexandre Alves
Tem sido empolgante ver as publicações de livros sobre a produção musical potiguar se tornarem cada vez mais frequentes, seja vindos da academia, como Nos Tempos do Blackout, ou mais despretenciosas, como o título celabrativo DoSol 10 anos. O 100 discos do rock potiguar traz textos de Alexandre Alves, Alexis Peixoto, Hugo Morais, Olga Costa, Jesuino André Oliveira e Mr. Moo, sobre discos considerados fundamentais para a história do rock do Rio Grande do Norte. Festival do Desconcerto, disco do SeuZé, lançado em 2005, está no livro.

A arte de fazer um jornal diário
Ricardo Noblat
No meio da minha graduação em História pensei algumas vezes em mudar de curso. Jornalismo foi uma das áreas que cogitei algumas vezes para uma migração. Cheguei inclusive a cursar algumas disciplinas em Comunicação Social e a curiosidade e interesse sobre a área nunca se dissiparam de vez. Gostei da abordagem de Noblat, focada nos bastidores da profissão, passando por diferentes estágios da carreira do autor.

Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização
Franklin Foer
Livro precioso que aborda a relação entre futebol e sociedade, em diferentes contextos. Da ligação entre o ludopedio e identidade nacional na antiga Iugoslávia, passando pela relações de gênero no Irã em torno do futebol, uma leitura essencial para quem se interessa minimamente pelo esporte bretão além das quatro linhas, ou mesmo como referência para discussões sobre globalização.

Do que eu falo quando eu falo de corrida
Haruki Murakami
Meu debute na obra do romancista Haruki Murakami foi através de uma não-ficção, Do que eu falo quando eu falo de corrida é um ensaio em que autor japonês reflete sobre como se tornou um corredor dedicado e como a disciplina e método necessários para a participação numa maratona, são semelhantes às demandas para a atividade de escritor de romances. Fiquei obcecado pelo estilo de escrita de Murakami e agora estou avançando na leitura de 1Q84.

Correr: o exercício, a cidade e o desafio da maratona
Drauzio Varella
Na tentativa vã de buscar inspiração para me tornar um corredor mais ativo, cheguei a esse livro inesperado de Drauzio Varella. Assim como Murakami, Drauzio tornou-se um corredor frequente já na vida adulta e maratonista, após os 50 anos. Ainda não completei os meus primeiros 5km, mas recomendo fortemente esse livro daquele que alguns chama de Dr. Áuzio.

Dias de inferno na Síria
Klester Cavalcanti
Relato extasiante do jornalista que foi enviado à Síria como correspondente de guerra e acabou preso no país.

Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável
Pedro Burgos
O título menciona vida digital, mas o livro de Pedro Burgos traz reflexões essenciais para a vida real, ao discutir o impacto das redes sociais e dispositivos móveis nos indivíduos e nas sociedades.

Jogador nº 1
Ernest Cline
Quando comecei a me dedicar à filmografia de Woody Allen, há 10 ou 12 anos, me questionei sobre as razões de eu me identificar com a maioria daqueles filmes. À época eu concluí que a explicação estava nas referências aleatórias - com Kant, psicanálise, antissemitismo, Marx, Freud, síndrome de impostor, que o diretor jogava nos diálogos, e que funcionavam como iscas para aquele estudante de História de então.
De certa maneira, o Jogador nº 1 teve um efeito semelhante em mim. À despeito da premissa de ficção baseada em realidade virtual e videogames, o livro é um apanhado de referências a nerdices e cultura pop dos anos 1980 e 1990 para fisgar marmanjos com mais de 30 anos, saudosos da sociabilidade nas locadoras de videogame e afins. Pois o marmanjo aqui mordeu a isca mais uma vez.

Master System: a história completa do grande console da Sega
Editora Europa
Em junho desse ano voltei a jogar videogame assiduamente após comprar um Xbox One e fiquei bem obsessivo em relação à temática, consumindo livros, podcasts e filmes sobre a mídia. Esse livro traz textos técnicos sobre o desenvolvimento do Master System e de alguns dos principais jogos, mas colocando sempre em perspectiva com o mercado, à época dominado pela Nintendo.

Super Nintendo: a história completa no melhor videogame da Nintendo
Editora Europa
O livro traz informações técnicas sobre o Super Nintendo e alguns dos jogos mais reconhecidos.

Meia-noite e vinte
Daniel Galera

Podcast: guia básico
Leo Lopes

Roberto Carlos em detalhes
Paulo Cesar de Araújo


Som do vinil: Clube da Esquina
Entrevista a Charles Gavin

Um brasileiro em Berlim
João Ubaldo Ribeiro
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Pretendo fazer esses compilados anualmente e reunir todos aqui.
Mais ouvidas em 2016

Sem dúvidas as maiores descobertas musicais desse ano foram o Friendly Fire, de Sean Lennon, A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares e Maravilhas da Vida Moderna, do Dingo Bells.
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Daqui pra frente, anualmente, pretendo fazer esse levantamento das mais ouvidas aqui no blog. As estatísticas estarão reunidas nessa página.
Compositor de 5ª série

Tenho o hábito de eventualmente fazer pesquisas no Google sobre citações aos meus projetos musicais espalhadas pela grande rede. Quase sempre encontro textos sobre discos que eu lancei e ainda não tinha lido. Mas, de vez em quando retorno à textos antigos sobre o SeuZé, que eu já conhecia.
Na semana passada, enquanto fazia a referida pesquisa, me deparei com críticas sobre o primeiro disco do SeuZé, Festival do Desconcerto, lançado em 2005. Esse foi o primeiro disco que gravei e lancei em uma banda e por isso tenho um carinho especial por ele. Mas não posso negar que não gosto de muita coisa que foi registrada ali, especialmente dos timbres. Também não gosto da forma confusa e mal processada com que misturamos as referências. Até acho que FeLL e Augusto fizeram um bom trabalho nas guitarras e Eduardo Pinheiro, que produziu o CD, conseguiu tirar um excelente som dos instrumentos deles. Mas, ouvindo hoje, acho o som da bateria e do baixo muito artificiais e comprimidos.
Enfim, o que quero afirmar com toda essa divagação é que consigo perceber que o álbum de debute do SeuZé é cheio de lacunas e deficiências e que eu entendo tranquilamente certas críticas negativas das quais foi alvo. Concordo que algumas letras têm poética simples e imatura. Hoje eu não batizaria uma canção minha com um nome tão direto e simplista como ”Antônio Conselheiro”. Mas essas são marcas do tempo e provavelmente daqui a 10 anos eu olharei para a minha produção atual com um olhar bem reticente.
Entretanto, uma crítica recorrente às primeiras musicas do SeuZé que eu ainda não consegui digerir é a que questionava o nosso direito de abordar temáticas ligadas àqueles esteriótipos tradicionais sobre o Nordeste: seca, sofrimento dos sertanejos, entre outras. O argumento? Somos playboys de classe média oriundos de centros urbanos.
De fato, hoje em dia tenho outras referências e preferências e não me interesso por escrever sobre o que escrevia no começo do SeuZé, mas não faço isso porque não consigo me identificar nos personagens sobre os quais escrevo. Essa linha argumentativa ignora um aspecto básico inerente à produção artística que é a representação, além de por o crítico numa posição complicada. Colocar em xeque o direito de um compositor abordar uma realidade na qual ele não está diretamente inserido levaria críticos de música a autorizarem poquíssima coisa a ser escrita.
Por exemplo, questionar o direito de Chico escrever canções sob o ponto de vista de mulheres simplesmente porque ele é homem, nos privaria do privilégio de ouvir pedradas como "Com Açúcar, com Afeto", "Atrás da Porta" ou "Tatuagem".
Reproduzo abaixo o trecho de uma dentre diversas críticas que analisaram o primeiro disco do SeuZé sob essa ótica.
"Mais redonda em sua proposta, a banda potiguar Seu Zé vem colecionando elogios com seu promissor primeiro trabalho, Festival do desconcerto, um disco quase conceitual que também aposta na mistura rock/mpb e, a bem da verdade, acerta tanto quanto erra nos alvos em que mirou. [...] A certa altura do disco, o ouvinte fica a se perguntar da legitimidade de letras como "eu vou partir, vou deixar meu sertão / com esperança na alma e enxada na mão", entoadas por jovens de aparência tão classe média"
(http://rockloco.blogspot.com.br/2006/09/como-era-gostosa-minha-mpb.html)
O blog que menciono acima era administrado por uma turma que tocava um programa de uma rádio baiana. Mas o teor da análise se repetiu em textos e falas sobre o Festival do Desconcerto, vindos de Natal e de outros estados.
Refletir sobre essa questão no momento em que me proponho a trabalhar em uma nova leva de composições pode soar como uma forma de autodefesa antecipada, ou uma tentativa de justificar certas temáticas que eu venha a abordar. Não é. Sequer sei sobre o que escreverei, muito menos tenho um conceito a abordar nos esboços de canções que já encaminhei.
A primeira vez que entrei em contato com a noção de "eu lírico" foi numa aula ministrada para a minha turma de 5ª série, pela estimada professora de Língua Portuguesa, Ana Alice, no Colégio Salesiano de Natal. Obviamente não tinha noção àquela época de como me apropriaria daquele conceito de maneira mais prática. Lembrar dele agora é uma forma de me precaver de um dos principais males que podem acometer um compositor: a autocensura.
Aos críticos e colegas compositores que pensam diferente só tenho duas coisas a oferecer: o debate ou um livro de português da 5ª série.
Discos como atalhos

Entre 2008 e 2010 estive envolvido no meu mestrado em História. Na pesquisa que eu desenvolvi, tentei entender as mudanças na relações sociais decorrentes da introdução dos primeiros aparelhos reprodutores de música (fonógrafos e gramofones), no Rio de Janeiro, na primeiras décadas do Século XX.
A fase em que eu tive mais dificuldade de concentração e foco foi durante a revisão bibliográfica. Eu precisava fazer leituras e tomar notas de praticamente tudo o que já havia sido escrito sobre a minha temática. O volume de leituras que já era grande, tornava-se enorme quando se juntava aos textos das disciplinas que eu estava cursando.
Diante da sobrecarga, cheguei perto de cair na tentação de me apropriar das ideias de comentadores. Explico. Não parecia muito mais cômodo e pratico do que ler tudo o que Mário de Andrade escreveu sobre música, repetir o que outros autores já concluíram sobre o modernista? Alguns chamam isso de plágio, outros de atalho intelectual. Resisti por pouco.
Lembrei dessa situação quando estava ouvindo hoje um compositor norueguês não muito conhecido no Brasil: Sondre Lerche. Conheci o escandinavo há uns 10 anos, a partir da indicação do amigo Ricardo Vilar. À época, acompanhávamos alguns blogs de download de música e costumávamos compartilhar com o outro o que achávamos interessante. A partir de então, passei a acompanhar tudo o que o músico lançou.
Depois de alguns meses sem fazer, ouvi novamente o disco “Two Way Monologue”, que junto de “Duper Sessions“, integra o meu top 2 do compositor.
Engraçado como a cada audição um disco nos revela coisas diferentes. Hoje, constatei que o Two Way Monologue é uma espécie de atalho musical, por conter referências bem digeridas a muita coisa boa da música pop anglo-americana dos anos 1960 para cá. Lá você encontra ecos de Beach Boys (arranjos de cordas e vocais que remetem ao Pet Sounds), Beatles, Dylan, tudo numa roupagem moderna e sem soar pastiche.
Essa é uma das grandes habilidades de composição e arranjo que eu ainda estou perseguindo: processar bem as referências e apresentar algo diferente a partir delas.
Ao longo dessa semana - a de debute desse blog - venho trabalhando numa parceria com Ticiano D’amore, que desde os primeiros esboços tem elementos de Bossa Nova, tanto na harmonia, quanto na rítmica. Estou satisfeito demais com a letra que Ticiano iniciou e com a melodia que estamos construindo, mas ainda não consegui pensar numa estrutura que fuja do clichê de bossa.
Vou deixar o disco do Sondre Lerche no meu player de música mais algum tempo para ver encontro o atalho certo.
Ficou curioso sobre o álbum que comentei? Compartilho agora:
[embed height="600" width="450"][play.spotify.com/album/0Gg...](https://play.spotify.com/album/0GgrwWOOVYRnE1odeLtYCK)[/embed]
Música em versão beta

Em algum outro blog que já mantive durante um curto intervalo de tempo, falei que sou muito indisciplinado para compor. Tenho uma inveja branca de amigos compositores que conseguem experimentar uma rotina de criação constante, mas nunca consegui fazer o mesmo.
Em geral, eu componho por demanda. Foi assim com todos os discos do SeuZé e com o de estréia do Forasteiro Só. Diante de um projeto com deadline determinado, eu costumo arregaçar as mangas e só paro quando atinjo a quantidade de canções necessárias para aquele disco. Acontece que esse método de criação me esgota. Vivo uma imersão tão intensa durante aquele período, que quando encerro o processo, não consigo mais pensar em compor pelos próximos meses. E aí, quando a ideia de um novo projeto ou disco surge, tudo recomeça, pois, entre um trabalho e outro, eu não consegui produzir aos poucos. Confesso que mais de uma vez já cheguei a adiar a ideia de fazer um disco pelo receio de entrar nesse frenesi que descrevi acima.
Eis que me pego novamente cheio de ideias que gostaria de transformar em canções. Cogitei usar esse apanhado de composições para um novo disco do SeuZé ou para um novo registro do Forasteiro Só. Até mesmo reuni coragem para considerar lançar algo realmente solo, assinando como Lipe Tavares. Independentemente da escolha, percebi que no fim eu acabaria caindo no mesmo problema do qual tenho tentado fugir desde que comecei a compor.
Então, estou tentando uma mudança de método: ao invés de partir do projeto, partirei das canções. Vou tentar reunir disciplina e organização para compor mais frequentemente e quando achar que tenho um recorte significativo desse momento de composição, ou à medida que as músicas forem surgindo, decidirei que rumo elas tomarão.
E é aí que chego ao sentido de ser desse blog. Escrever sobre o processo é uma forma de me motivar a fazer da composição parte da minha rotina, quase um hábito. Na verdade, espero que uma coisa alimente a outra, visto que, também, nunca consegui escrever com a frequência que pretendo.
A ideia é que esse espaço funcione como um diário de composição mesmo. Pretendo falar sobre as ideias para letras, músicas e/ou arranjos. Eventualmente quero falar sobre o que tenho ouvido, lido e aproveitado como referência. Também tenho muita vontade - não necessariamente coragem - de ir soltando os esboços mais crus das canções, desde os primeiros rascunhos de letras, até os registros mais simplórios e toscos das músicas. Além disso, também espero falar um pouco sobre as ferramentas que utilizarei ao longo do processo: softwares e equipamentos de áudio e suportes para registro de ideias.
Outra razão de tornar esse processo público, é convidar quem esteja lendo a ser parceiro e contribuir com ideias sobre todos os aspectos da criação dessas canções.
O negócio por aqui é música em versão beta.
Listo abaixo meus perfis em algumas redes sociais que também serão alimentados com conteúdo sobre esse projeto.
Twitter: @lipetavares
SoundCloud: soundcloud.com/lipetavares
Instagram: @tavareslfelipe